Uma criança de três anos que se recusa a vestir-se sozinha, embora o fizesse na semana anterior. Outra, de seis anos, que chora todas as noites na hora dos trabalhos de casa. Estas situações do dia a dia são desconcertantes, porque nem sempre sabemos se fazem parte de uma fase normal ou se são um sinal a levar a sério. Acompanhar o desenvolvimento de uma criança começa por aprender a interpretar estas pequenas mudanças e a adaptar a nossa resposta sem reagir em excesso.
Rastreio neonatal e boletim de saúde: duas ferramentas práticas de acompanhamento desde o nascimento
O acompanhamento do desenvolvimento começa muito antes das primeiras palavras ou dos primeiros passos. Em França, o rastreio neonatal foi alargado a partir de 1 de setembro de 2025: passaram a ser detetadas mais três doenças raras e graves logo nos primeiros dias de vida. Trata-se de uma colheita de sangue realizada na maternidade, que permite encaminhar a criança para cuidados precoces quando necessário.
O boletim de saúde também foi recentemente reformulado. Em 2026, o Ministério da Saúde comunicou esta atualização, que organiza melhor as etapas de prevenção a seguir ao longo da infância. Este documento continua a ser o elo de ligação entre os pais, o médico assistente e os especialistas. Consultá-lo antes de cada consulta médica ajuda a identificar um exame esquecido ou uma vacina em atraso.
Pode encontrar os conselhos da Carnet de Bébé para crianças para complementar este acompanhamento com orientações práticas adaptadas a cada faixa etária, desde o bebé até à criança pequena.

Identificar um problema de desenvolvimento na criança: os sinais que realmente importam
A maioria dos pais questiona-se, em algum momento, sobre o ritmo de desenvolvimento do filho. O problema é que as tabelas de desenvolvimento disponíveis online apresentam médias, e uma criança pode afastar-se da média sem que isso represente um problema. O que importa não é tanto a idade exata em que adquire uma competência, mas sim a existência ou ausência de progressos ao longo de várias semanas.
TDAH e perturbações da atenção: o que recomenda a HAS
As recomendações da Haute Autorité de Santé, publicadas em setembro de 2024 sobre o TDAH, esclareceram um aspeto metodológico. O diagnóstico pode agora ser feito por um médico com formação adequada, e não apenas por um especialista hospitalar. A HAS recomenda que se dê prioridade a intervenções não farmacológicas: adaptações escolares, orientação parental e reabilitação.
Na prática, quando um professor assinala dificuldades de atenção recorrentes, o primeiro passo não é procurar um neuropediatra (os tempos de espera ultrapassam frequentemente vários meses). Começa-se por marcar uma consulta com o médico assistente, que poderá encaminhar a criança para uma avaliação adequada.
Sinais a observar consoante a idade
- Antes dos 2 anos: ausência de balbucio, falta de contacto visual, nenhuma reação quando se chama a criança pelo nome em tom de voz normal. Um destes sinais, isoladamente, não é suficiente, mas a sua acumulação justifica uma avaliação médica rápida.
- Entre os 3 e os 5 anos: linguagem muito aquém da das outras crianças da mesma idade, birras intensas e diárias que não diminuem apesar de uma rotina estável, recusa persistente em brincar com outras crianças.
- A partir dos 6 anos: dificuldades persistentes na aprendizagem da leitura ou da escrita, agitação constante que impede a criança de concluir uma tarefa simples, perturbações regulares do sono.
A identificação precoce permite implementar apoios antes que as dificuldades se agravem. A HAS dá especial importância a este aspeto nas suas recomendações de 2025 relativas às crianças sob proteção, recomendando uma avaliação de saúde que inclua a saúde mental no mês seguinte ao início de uma medida de proteção.
Ecrãs e desenvolvimento infantil: estabelecer regras que se mantenham ao longo do tempo
O discurso sobre os ecrãs e o desenvolvimento infantil é muitas vezes alarmista, mas a realidade é mais complexa. Os riscos para o desenvolvimento cognitivo devem ser relativizados, desde que a utilização seja acompanhada.
O verdadeiro fator decisivo não é o tempo total passado em frente ao ecrã, mas o contexto de utilização. Uma criança que vê um vídeo educativo com um dos pais, que comenta e faz perguntas, não está na mesma situação que uma criança sozinha diante de um fluxo de conteúdos selecionados por algoritmos.
Alguns princípios que funcionam na prática:
- Sem ecrãs durante as refeições nem na hora que antecede o deitar. Estes são os dois períodos em que o impacto no sono e na comunicação familiar está mais bem documentado.
- Escolher os conteúdos em conjunto, em vez de deixar a reprodução automática decidir. Uma criança de quatro anos não distingue um anúncio de um desenho animado.
- Substituir a proibição total (que gera frustração e mentiras nas crianças mais velhas) por um limite semanal acordado em conjunto. A criança aprende a gerir um recurso limitado, o que é, por si só, uma competência.

Confiança e autonomia da criança: começar por situações concretas
A autoconfiança não se impõe. Também não se constrói repetindo mecanicamente frases positivas. Desenvolve-se quando uma criança consegue fazer algo que pensava não ser capaz de fazer e um adulto reconhece esse sucesso sem o desvalorizar nem exagerar.
Um exemplo simples: uma criança de cinco anos que põe a mesa pela primeira vez. Se partir um copo, a reação dos pais condiciona o que acontece a seguir. Dizer «não faz mal, vamos limpar juntos» deixa a porta aberta. Dizer «eu sabia que eras demasiado pequeno» fecha-a durante muito tempo.
Oferecer escolhas limitadas em vez de dar instruções abertas funciona bem entre os 3 e os 7 anos. «Queres vestir o casaco azul ou o vermelho?» dá à criança uma sensação de controlo sem a sobrecarregar com possibilidades. Esta abordagem também reduz a oposição sistemática, porque a criança participa na decisão.
A autonomia varia consoante o temperamento de cada criança: algumas pedem muito cedo para fazer as coisas sozinhas; outras precisam de acompanhamento durante mais tempo, sem que isso seja sinal de atraso. O objetivo não é assinalar etapas numa lista, mas respeitar o ritmo próprio de cada criança, mantendo ao mesmo tempo um enquadramento que a incentive, com suavidade, a avançar para a etapa seguinte.
O fio condutor, do rastreio neonatal às negociações sobre os ecrãs, é sempre o mesmo: observar antes de agir, recorrer às ferramentas de acompanhamento existentes e ajustar a abordagem quando a que estamos a utilizar deixa de dar resultados.



